Acabo de assistir a pré-estréia de Jobs.
O filme não acrescenta nada de novo para quem acompanhou a carreira de fundador da Apple, ou para quem leu o livro de Walter Isaacson.
Pelo contrário, trata apenas de uma fatia específica de sua vida, da fundação da Apple até seu retorno triunfal expulsando Gil Amellio em 1997.
A direção de Joshua Michael Stern é pouco inspirada. Não oferece nenhuma nova leitura, nenhuma interpretação mais autoral. Alias, bem aos moldes dos outros filmes do diretor, que não é responsável por nenhum grande sucesso em sua carreira.
Em termos formais, de edição ou fotografia, o filme é sem graça como uma Sessão da Tarde e daqui alguns anos, seguramente vai preencher a programação noturna depois do Zorra Total.
Steve Jobs merecia mais de Hollywood.
O roteiro é covarde e se atém ao terreno seguro do que é amplamente conhecido sobre a vida do personagem principal, assim vale no máximo como um registro cinematográfico de parte da vida de Jobs.
Quem não está familiarizado com os dilemas que Jobs passou como filho adotivo e os conflitos que teve buscando seu pai natural, talvez saia com a impressão que Jobs é apenas um hippie visionário e grosseiro, com um extremo talento comercial.
Enquanto escrevo, me ocorre inclusive que o filme trata muito mais da história da Apple do que da vida de Jobs.
Nenhuma referência à Pixar ou a Disney.
Talvez porque a vida de Steve Jobs foi tão complexa, tão cheia de idiossincrasias, dilemas e desdobramentos que é realmente um enorme desafio tentar contá-la em apenas 128 minutos.
Mas nada justifica o resultado final. O tratamento dado a Steve Wozniak, por exemplo, de tão caricato, chega a ser leviano.
No filme nunca fica claro porque Jobs que gostava de design e tipografia ficou tão fascinado quando viu os primeiros protótipos de um computador pessoal criados por Wozniak. A explicação está no livro iWoz, a biografia de Wozniak, que conta que o Valley (que viria a se tornar o Vale do Silício) era uma região repleta de fábricas de armamentos e aeronaves, portanto, com uma enorme população de engenheiros. Jobs e Woz, crianças, eram fascinados por eletrônica, circuitos, transistores e desde pouca idade brincavam com suas invenções eletrônica. Mas nada disso está na tela.
Também não é clara a importância de Paul Jobs, o pai adotivo de Jobs em sua verdadeira obsessão por qualidade. No filme o pai é apenas um personagem distante, que observa o filho com certa perplexidade, sem nunca influencia-lo.
Ashton Kutcher, no papel principal, exagera nos trejeitos, principalmente na forma de andar de Jobs, que as vezes lembra uma espécie de Garibaldo de barba. Apesar disso, os gestos com as mãos são bastante familiares para quem estava acostumado a assistir aos keynotes.
Keynotes, alias, que não aparecem no filme.
O roteiro traça uma parábola que começa com uma apresentação interna do iPod, volta para tempo de Jobs estudante, mostra a origem de seu interesse pelo design e principalmente por tipografia e a partir daí resume-se a mostrar sua personalidade agressiva como CEO, a criação do Lisa e do Macintosh, a derrota política para John Sculley e termina com sua volta à companhia.
Em resumo, é um filme para fanboys como eu, terem um gostinho de como era a Apple pré-iPod. E chatinho para quem espera um filme original sobre uma das mentes mais brilhantes do nosso tempo.
Source:
http://www.updateordie.com/2013/09/04/jobs-o-filme/